Saúde

Alerta- Depressão é doença sim, não frescura

Tratamento precoce é essencial para a recuperação da saúde mental do paciente. Mulheres são até três vezes mais suscetíveis a desenvolver este tipo de transtorno

Depressão não é frescura. É doença. E das graves. Compromete o bem-estar do corpo e da alma, e algumas vezes até da família, que não sabe como agir. Segundo levantamento recente da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) mais de 300 milhões de pessoas, de diferentes idades, são vítimas da depressão no mundo. A boa notícia é que tem tratamento.

“A depressão é considerada uma doença e, como toda doença, tem pacientes que se curam e pacientes que sofrem por um longo período. Tudo depende da intensidade – leve, moderada e grave. Porém, quanto antes iniciar o tratamento, mais chances de se obter a cura”, afirma o médico psiquiatra Júlio Dutra, de Apucarana.

Mas o que é a depressão? O que a causa? É uma tristeza profunda aliada a perda de prazer em viver ou uma alteração química do cérebro? “A depressão é um transtorno mental caracterizado pela presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado por alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente o funcionamento pessoal, familiar, social, acadêmico e profissional do indivíduo”, psicóloga Mariane Benicio Fontana Morais, de Apucarana.

Segunda ela, os episódios depressivos causam sofrimento intenso e têm pelo menos duas semanas de duração. O humor deprimido é persistente e não é associado a pensamentos e preocupações específicos. Já a tristeza é passageira e está associada a situações específicas.

Sobre a causa da depressão, Mariane argumenta que não há uma específica, mas é resultado de uma complexa interação de fatores biopsicossociais. “No que diz respeito ao cérebro, acontece uma alteração na química, mais especificamente na produção de substâncias chamadas de neurotransmissores, como dopamina, serotonina e a noradrenalina, relacionadas à sensação de bem-estar”, observa a psicóloga.

A profissional complementa que os hormônios do estresse também prejudicam o equilíbrio químico do cérebro. “Além disso, há os fatores de risco de ordem genética, incluindo traços de personalidade, ambientais, como experiências traumáticas. A presença de outros quadros clínicos, como ansiedade e condições médicas crônicas, também aumenta o risco de depressão”, afirma Mariane.

Psicóloga Mariane Benício Fontana Morais

 

“A depressão é um transtorno mental caracterizado pela presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado por alterações somáticas e cognitivas”.

A psicóloga observa que pessoas do sexo feminino apresentam índices de depressão até 3 vezes mais altos do que as do sexo masculino. “Em mulheres, o risco de tentativa de suicídio também é mais alto, enquanto o risco de suicídio completo é mais baixo”, compara.

Conforme Mariane, a maior prevalência de depressão em pessoas do sexo feminino acontece em decorrência de fatores diversos, como os de ordem hormonal, questões sociais e situações de vida, por exemplo, os múltiplos papeis e as jornadas de trabalho excessivas.

Preconceito: o maior vilão na busca por tratamento

 Médico psiquiatra Júlio Dutra

Na avaliação do médico psiquiatra Júlio Dutra, de Apucarana, o que mais atrapalha na busca por tratamento é o preconceito. “Não pode ter esse estigma, esse preconceito com quem sofre de depressão. É preciso quebrar esse preconceito. Os profissionais de saúde mental existem justamente para orientar as pessoas que procuram”, esclarece.

Para exemplificar, ele faz uma analogia: “Quando alguém está com dor no peito, procura um cardiologista. Quando está com dor no joelho, procura o ortopedista. E quando é a dor da alma? Quem deve procurar? O profissional de saúde mental”, afirma.

Dutra comenta que, por mais que se possa disfarçar ou ter momentos mais felizes, essa dor acompanha a pessoa o tempo inteiro, como se fosse uma nuvem. “Ou como se tivesse uma cortina na janela. É assim que os pacientes descrevem. Também falam muito sobre o cinza. Como se nada mais tivesse cor. Nada mais alegrasse”, diz.

O médico psiquiatra faz questão de frisar ainda que a depressão não é falta de Deus. “Dizer isso ou levanta dessa cama, você é tão jovem, tão bonita (o), é mesma coisa dizer para alguém que perdeu a perna: corra. A pessoa que está passando por um quadro depressivo não tem condições de levantar cedo e sair trabalhar, de ser prestativa, disposta. Não tem isso dentro dela. É uma doença como qualquer outra, mas como as pessoas não enxergam, não querem acreditar, mas está ali”, garante.

Dutra observa que todos estão suscetíveis a ter depressão ao longo da vida. “Uma a cada três pessoas tem, teve ou terá depressão ao longo da vida. Porém, nem todas saberão. Pois, entram no processo e saem, mas também tem que saber diferenciar um processo de tristeza, de “fossa”, de um processo depressivo. Por isso, a avaliação por um profissional da área é necessária”, frisa.

Além disso, ele orienta a ter relacionamento mais próximos, inclusive dentro de casa. “Precisamos olhar nos olhos, dar espaço para o outro falar. Queremos transparecer que somos autossuficientes e não damos espaço para os outros entrarem no nosso cotidiano. Primeiro porque não queremos nos abrir, segundo porque não queremos demonstrar fraqueza. Nessa busca constante por sucesso, adoecemos”, assinala.

Suicídio: uma ação tomada no desespero

Pôr um fim ao sofrimento. Esse é o desejo, de acordo com especialistas, de quem tenta contra a própria vida. O médico psiquiatra Júlio Dutra, de Apucarana, observa que o suicídio geralmente ocorre num momento de extremo desespero, de pânico.

“Nesta hora, se a pessoa não tiver alguém por perto que possa recorrer, conversar, realmente, se mata. É diferente de um quadro depressivo que pode se arrastar, se tornar crônico, grave e levar ao suicídio. Por isso, a importância de cuidar da depressão ou de qualquer outro transtorno mental logo no início”, ressalta.

O especialista comenta ainda uma pesquisa realizada num hospital psiquiátrico apontou que 99% dos casos de suicídio eram identificados com fator emocional prévio. “Então, é natural entendermos que para uma pessoa se matar, o cérebro não está bem”, diz.

Da depressão grave à cura

Suelim ao lado dos filhos Lorenzo e Enrico e do esposo Saulo Mansano

Quem vê a maquiadora Suelim de Campos Mansano, de 33 anos, envolta com os dois filhos, Lorenzo, de 4 anos, e Enrico, de 4 meses, e o marido, o bancário Saulo Rodrigo Mansano, nem imagina os dias “cinzas” que já viveu. “Os dias eram cinzas. Eu só via cinza. Nada tinha sentido, nada tinha graça”, descreve um pouco a experiência pela qual passou, dos 18 aos 23 anos.

A depressão, segundo Suelim, chegou aos poucos. Na época, ela trabalhava como vendedora, fazia cursinho pré-vestibular e maquiagem aos fins de semana, passou a se sentir mais cansada, a dormir mais cedo, a lavar os cabelos só de vez em quando, parou de fazer as unhas e assim as pequenas atividades do dia a dia foram esvaindo. Até que chegou ao ponto de não escovar mais os dentes, não querer comer nem sair do quarto. Deixou o trabalho e o hobby, que hoje é profissão.

Ela procurou tratamento médico e terapêutico, além do apoio incondicional da família e do namorado, que é o atual marido. Entre os altos e baixos, as crises de pânico e aviso de um possível internamento clínico diante do quadro depressivo, Suelim teve uma experiência que a despertou novamente para a vida. “Tudo já não fazia sentido. Até o canto dos pássaros me irritavam. Eu estava andando próximo ao Cemitério da Saudade e conversando com Deus para tirar essa dor de dentro de mim. Nessa hora, eu ouvi um pássaro cantando bem forte ao lado do meu ouvindo, mas ele estava no fio”, recorda.

A partir desse momento, Suelim revela que buscou no seu interior ainda mais força para viver, para voltar a fazer as pequenas coisas do dia a dia como se tudo fosse uma grande missão a ser cumprida, dia após dia. “Também, neste processo, sempre contei com a presença e participação do pastor Cleverson Junior e da sua esposa, a também Kelly, que oravam muito por mim e comigo. Para mim, foi a minha fé que curou. Para mim, foi Deus que me curou”, afirma.

Atualmente, ela, que também é influencer digital, ajuda outras pessoas que passam pela depressão. “Não faço grupo, gosto de conversar com a pessoa, falar o que funcionou para mim”, diz.

Para os amigos e familiares, ela orienta conversar de forma normal com a pessoa, levar alegria a esta pessoa, lembrá-la das qualidades que tem. “Amigos tem a fundamental tarefa de trazer a alegria ao doente, deixando de falar da depreensão tão presente, sempre mudando de assunto e trazendo na memória dele qualidades que ele tem”, exemplifica.

Hoje em dia, ela garante que está feliz e curada. “Nunca mais tive aqueles pensamentos negativos ou de morte. Hoje, sou mais que feliz, sou realizada. Vejo a minha família como o melhor presente que Deus poderia me dar”, diz.

“A depressão se tornou um elemento de estagnação”, define Carla Caroline Ferreira

A frase da apucaranense Carla Caroline Ferreira, de 25 anos, define o momento em que decidiu buscar ajuda. Ela, formada em Letras, conta que só se deu conta que algo não ia bem e precisava de ajuda quando se percebeu paralisada para fazer coisas básicas do dia a dia, como tomar banho, escovar os dentes, e até atividades prazerosas.

“Eu só busquei ajuda quando percebi que estava atrapalhando o meu dia a dia”, diz observando que, apesar da depressão estar presente desde a adolescência, só a percebeu entrando na vida adulta, aos 19 anos, quando buscou ajuda. Na época, ela fazia Serviço Social e não conseguiu acompanhar o curso.

“Hoje, eu estou estabilizada, não digo que estou 100%, mas consigo viver bem, graças ao tratamento”, avalia. Carla faz acompanhamento psiquiátrico e toma alguns medicamentos, porém confessa que já desistiu algumas vezes da ajuda profissional, porém reconhece a sua importância. “Em alguns momentos parece que é à toa, que não está adiantando, mas é preciso ter paciência, porque funciona”, afirma.

Texto, Vanuza Borges
Fotos – Sérgio Rodrigo

 

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